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Faria tudo outra vez

Bastou que as primeiras dores de parto do futuro governo começassem – dores estas, sejamos justos, agravadas pela arrogância notória de Lula – para que muitos que lhe emprestaram voto ensaiassem arrependimento e, claro, para que todos que deram voto e venderam alma a Bolsonaro ensaiassem o coro de “eu avisei”.

Concordo com quem não tem concordado com alguns movimentos do petista. Ele ainda não parece estar convencido de que, desta vez, venceu mais pelos defeitos do adversário que pelas próprias virtudes. Foi a primeira eleição, desde 1989, em que o PT representou uma frente ampla, em vez de apenas a si mesmo.

Mas não faz sentido fingir que não se sabe o que se sabe muito bem: o mercado, embora feito de gestores e especuladores reais, não é um bicho-papão antropomórfico que odeia os pobres e ama os ricos. Lula sabe disso, sabe que economia é expectativa e que precisará calibrar o discurso para que soe afinado a empregados e a patrões.

Tudo isso é verdade, embora com verdades também se contem mentiras. O destempero verbal de Lula, que provocou queda da Bolsa e alta do dólar, justificaria o arrependimento? Deveríamos ter apostado (quem apostou da primeira vez) na continuação do governo de Jair Bolsonaro?

De jeito nenhum. Eu, que nunca havia feito o L, faria de novo com redobrada certeza. Lula pode ser, espero que não seja, um risco temporário à economia. Bolsonaro era e continuará sendo um risco permanente à democracia – e à economia junto. Os atos golpistas que se espalham no país provam isso.

Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, confirmou que contestará o resultado do pleito. Dos quarteis, os murmúrios continuam e, mais grave, reverberam no entorno do Planalto. Conversando com eleitores, o general Braga Netto, candidato derrotado a vice, recomenda: “Vocês não percam a fé. É só o que posso falar agora”.

O que, exatamente, ele quer dizer com isso? Que haverá golpe? Que o resultado será contestado? Que os militares se juntarão aos militantes contra a democracia? A soma do ímpeto de Costa Neto às promessas de Braga Netto me dá a certeza de que o golpe seria uma rima, nunca seria uma solução. Faz o L? Faria tudo outra vez.

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